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O CINEMA.

19/01/2007
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A demolição já havia estourado os prazos. Aqueles fanáticos por velharias tentaram de tudo. Sabotaram tratores, misturaram laxantes nas refeições dos operários, Roubaram as baterias dos veículos e até os cordões detonadores de nosso paiol.

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Será que essa gente não entende que para que o novo possa nascer; o velho tem que morrer? Afinal, era só um prédio velho. Comido pelos cupins e praticamente já posto a baixo pelo próprio tempo.

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Como alguém podia preocupar-se com um monte de troços velhos? Era um enigma para mim.

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Aquele velho cine-teatro já tinha perdido seu glamour a muito. Os grandes atores e atrizes não passavam por lá, a mais de trinta anos. Até mesmo os iniciantes torciam o nariz para o velho e outrora majestoso prédio.

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As máquinas rugiam e foram se posicionando para a parte final da demolição. Junto ao canteiro de obras, observava uma jovem bonita, com seus vinte e poucos anos, corpo escultural e um rosto de fazer babar qualquer homem de meia idade como eu.

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O ronco dos motores se elevou e pude perceber que ela demonstrava um profundo desespero. Olhando para o velho prédio, seus olhos pareciam perderem-se na poeira do tempo. A cena era tão bela, que fiquei comovido. Interrompi os operários e corri por entre o labirinto de máquinas, pás, picaretas, buracos e homens; na direção daquela jovem magnífica.

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Seus olhos negros e profundos estavam marejados de lágrimas, seu cabelo estilo Channel, dava ao seu rosto lindo um ar de beleza singela e sedutora.

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Tomando coragem e rezando para que ela não fosse mais uma chata viciada em velharias que armasse um escândalo e atrasasse mais a minha obra; pedi para que se retirasse, pois ali era perigoso.

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Uma voz encantadoramente macia e sensual saiu de sua boca e envolveu meus ouvidos como um abraço aconchegante: “Eu sei, mas era um prédio tão bonito. Eu gostava muito dele.”

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Ainda encantado pela beleza física e o som maravilhoso de sua voz; eu pedi que esperasse e, dando a volta nos tapumes, aproximei-se dela e me vi, imediatamente, envolvido por um perfume inebriante. Aquela mulher me deixava enlouquecido. Seu corpo, sua voz e agora, seu cheiro… Tinha que conhecê-la melhor e convidá-la para sair. Apesar de meus 50 anos, era um homem forte e vigoroso. Recebia muitas cantadas nas boates e barzinhos que freqüentava. Mas ela… nem parecia me notar. Tinha olhos apenas para o velho cinema.

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Em dado momento, ela se virou e deu-me um sorriso. Apertou minha mão e num gesto inesperado; beijou meu rosto com profundo carinho.

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Sem dizer uma única palavra, deu-me um pequeno pedaço de papel e se foi na multidão.

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Meu coração martelava o peito com a excitação, minha boca ficou seca e uma euforia adolescente tomava conta de mim. Parecia telepatia, ela percebera meu interesse e deixara seu telefone. Depois do trabalho iria ligar e marcar um encontro. Seria fantástico.

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Voltei ao trabalho e prosseguimos a demolição. O velho prédio veio abaixo, em pouco tempo e após a nuvem de poeira baixar, enviei a peãozada para remover os escombros e despachar os caminhões de entulho. Voltei ao meu trailer e tomava um bom banho (só pensando nela) e, depois de umas duas horas; um servente veio até mim dizendo que haviam achado algo no entulho.

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Os trabalhadores se amontoavam perto de uma das escavadeiras, tentando ver o melhor que podiam. Abri caminho por entre aquele grupo fedorento e suado (teria que tomar um novo banho). Chegando ao centro do tumulto; pude ver um baú antigo, cheio de filmes velhos e de cartazes mais velhos ainda. Olhei aquilo tudo e, achando que poderiam valer algum dinheiro, levei tudo para o trailer. Examinando o material, encontrei um cartaz rasgado na ponta com o anúncio de um filme muito antigo. Quando ia jogá-lo de lado, meus olhos foram atraídos por algo surpreendente. A atriz principal era idêntica à mulher que conhecera na obra mais cedo. A semelhança era inverossímil. Olhei mais atentamente e percebi; os cabelos, o corpo esbelto e delicioso, o rosto angelical. Tudo igualzinho. Era demais para ser coincidência.

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Procurei pelo cartaz o nome daquela mulher; mas não achava. Havia um rasgão bem no lugar do nome. Já meio ensandecido procurei, nas calças que usava cedo, pelo papel que a mulher me dera. Achei-o no bolso e, ao abri-lo, percebi que além de encaixar perfeitamente no rasgo do cartaz, não havia um número de telefone ali. Havia apenas um nome em letras grandes…JOSEFINNE.

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Comovido e com os olhos cheios de lágrimas, rezei baixinho…

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6 Responses to O CINEMA.

  1. Pankwood on 20/01/2007 at 03:58

    Uauuu, belo suspense meu caro. Se isso aqui nao fosse um blog essa historia poderia render muito.
    Nota 10 kara
    abraço

  2. Dante Último Inverno on 20/01/2007 at 15:12

    Uau,ótima prposta.Esse terror lúgubre me encanta.Espere masi visitas minhas,ok? Abraços!

  3. Fernando on 20/01/2007 at 21:49

    ÔÔÔ , muita bem feito nossa, realmente intrigante!

  4. J.J. Nunes on 21/01/2007 at 15:10

    Cara seu blog e muito legal e suas historias são otimas, apesar do meu blog ter outro tema eu tambem gosto d escrever sobre suspensa… e vc escreve super bem!!!!!

  5. Anonymous on 24/01/2007 at 16:22

    Nossa, outra história fora de série, mesmo sendo uma história de fantasma tá super original e muito bem escrita

  6. Anonymous on 25/01/2007 at 01:47

    Adorei o blog, o clima, Baudelaire ali em cima e, principalmente, os contos. Parabéns!

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