Estava frio. A garoa caia fina e gelada; parecia penetrar a pele como milhares de pequenas lâminas afiadas. A noite escura mergulhava a cidade inteira, num estranho silêncio moribundo. As ruas desertas, os becos escuros. Ele olhava em volta a procura de alguém para aquecê-lo. Tinha medo de ficar sozinho naquelas noites. Lembrava-se de sua infância e de como criminosos invadiam as casas, no bairro pobre onde morava e violentavam as mulheres após espancarem os moradores, só por diversão.
Cedo, aprendera a defender-se deles, fingindo que dormia. Mesmo enquanto o violentavam ou batiam. Ele ficava quieto e refugiava-se no interior de sua mente, cada vez mais fundo, buscando a paz que sabia não existir.
Caminhava encolhido e imerso em seus pensamentos. O frio causava nele uma estranha sensação de medo e desamparo. Tinha que encontrar alguém ainda aquela noite. Sob a luz difusa dos postes, deslizava quase invisível pelas ruelas e becos, sempre observando.
Ao longe, pode vislumbrar a silhueta de uma mulher. Ela caminhava rapidamente, enrolada num casaco caro seus sapatos de salto alto ecoavam através da noite em seus passos rápidos e nervosos. Ele a mediu mentalmente e, apressando o passo, seguiu em seu encalço. Ela virou a esquina e começou a correr pela rua deserta; já o tinha visto. Mas ele, ao invés de correr atrás dela, parou e a observou mergulhando na noite. Conhecia aquelas ruas como a palma de suas mãos. Esmolara por ali toda sua infância; sabia de uma pequena viela que cortava o caminho e interceptava a rua principal mais à frente. Escondida pelos prédios novos, a viela estendia-se quase em linha reta pelo emaranhado de construções históricas.
Um sorriso mórbido percorreu fugazmente seu rosto enquanto ele corria. Como um predador, antevia a surpresa de sua vítima com um brilho frio de prazer nos olhos. Mal chegara ao fim do caminho e podia ouvir os passos da mulher, retumbando no calçamento. Quando ela passou por ele, nem percebeu as mãos fortes que agarravam seu corpo e cobriam sua boca tão violentamente, que nem pode gritar. Um potente soco a fez calar-se, antes mesmo de qualquer tentativa de emitir um sussurro sequer.
Ele a admirou na escuridão quase completa. Olhava embevecido seu rosto magnificamente maquiado. A boca, cuidadosamente delineada, que já começava a inchar pela violenta pancada. O colo branco e macio visto pela abertura do pesado casaco, o permitia vislumbrar os seios firmes e redondos. Afastou seu vestido, expondo os mamilos róseos e a pele alva e fina daquela obra de beleza natural. Ela era perfeita.
Ele a arrastou cuidadosamente para seu carro e levou-a para casa. Queria começar o trabalho ainda aquela noite. Nada de ficar sozinho e com frio. Ela o aqueceria e o protegeria por muitas noites. Finalmente, sentia-se protegido e amparado.
Na manhã seguinte, a polícia atônita, procurava pela jovem na cidade toda. Filha de um importante político, a imprensa e as autoridades realizavam verdadeira caçada humana, inclusive oferecendo recompensas pela sua localização. Tudo em vão.
Os meses passaram-se e a jovem nunca mais foi vista. O verão chegou e o calor, sufocante e recorde, causava mortes por toda a cidade. Acostumados ao frio, os cidadãos sofriam com as altas temperaturas e a falta de chuva.
Naquele bairro pobre, era muito pior. As casas mal construídas e aglomeradas não facilitavam a circulação de ar. O cheiro era horrível. Os corpos suados, o esgoto correndo a céu aberto, mosquitos, lixo pelas ruas. Um verdadeiro inferno. Mas naquela pequena casinha azul, as janelas permaneciam sempre fechadas. Dia ou noite.
Os vizinhos começaram a sentir um cheiro extraordinariamente ruim vindo daquela pequena casa azul. O morador antigo do local, um rapaz gentil que morava ali desde criança, não aparecia muito. Mas era estranho. Desde que o verão começara ele desaparecera e se trancara em casa. Agora, aquele cheiro horroroso. Pensando no pior, chamaram a polícia.
Ao chegarem, nada prepara os policiais que se depararam com ele ainda deitado no sofá. Um homem jovem, envolto num vistoso casaco de pele que ia até os pés, estava morto; já há alguns dias. O legista atestou morte pelo calor. Mas o mais estranho era o casaco. Ao mexerem no corpo para examiná-lo, notaram que a parte interna dele era grosseiramente remendada. Um exame mais detalhado causou espanto e comoção em todos: Era pele humana. E os pelos eram, na verdade, cabelos.
Numa revista geral pela casa, encontram conservados em sal, vários órgãos sexuais femininos e um cinto feito de mamilos, cuidadosamente aplicados, em couro e ornados com cristais. Num armário no quarto, várias cabeças decepadas e com o cabelo raspado, amontoavam-se em vidros. Tudo cuidadosamente conservado em formol. Numa exposição macabra. No quintal imundo ossadas de, pelo menos, dez mulheres; foram desenterradas. Fotos descreviam passo a passo como o homem matara, esfolara e dissecara suas vítimas; uma a uma. E depois fizera o estranho casaco com seus despojos. Ele vestia-se orgulhosamente e desfilava pela rua ante a visão e abraços de seus vizinhos maravilhados.
No mais rigoroso inverno, finalmente, parecia aquecido e feliz.
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muito louco esse blog,e único no estilo,bem impressiona e faz a gente prender a atenção nas histórias
Queria fazer uma crítica construtiva, mas não achei o que criticar.
Adorei
Serial Killers rendem boas histórias, mesmo!
Pois, só mesmo as histórias terríveis da realidade dão para inspirar os realizadores, isentos de fantásticos contos de terror misteriosos…
Tenho um fascínio por essas lendas urbanas assustadoras.
Ufa! Fez-me recordar do Hannibal.
Vi esse filme e achei-o espectacular.
Um grande abraço para o escritor que criou este post.