
“O problema é simples. Eu a quero morta e te pago o necessário para ter um serviço limpo e sem surpresas”.
Olhei atentamente aquele homem de meia idade, com aparência de um senhor distinto e de posses. Seus cabelos brancos e olhos azuis profundos escondiam uma mente atormentada e maquiavélica.
Em todos os meus anos de profissional, já tinha visto e ouvido de tudo: Maridos pedindo a morte de esposas e vice e versa. Filhos pedindo o mesmo para os pais. Amigos de anos, oferecendo rios de dinheiro para “dar um jeito” no outro amigo. Mas, aquela figura sentada bem na minha frente era algo novo.
Ele não queria a cabeça da esposa, de um sócio, de um amigo ou de qualquer outro desafeto. Não era uma questão de bens ou herança. Ele havia me contratado para matar uma criança.
Estranhamente, ele não se referia a ela por um nome, mas a chamava de “aquela coisa”. Não me disse se era sua parente ou conhecida. Mas desconfiava de que eram próximos. Um ódio assim, tão grande, não nasce na distância.
Suas mãos suavam e tremiam. As unhas eram roídas até o sabugo. Os olhos azuis irradiavam um extremo desespero e uma dor antiga.
Cheguei a casa na hora combinada. Era uma casa antiga, de dois andares. Que precisava de muitas reformas. Na frente, havia um jardim mal tratado; seco e sem plantas. Enfim, uma casa decadente.
Entrei e sondei os cômodos. Tudo parecia vazio. Estranhei. Imediatamente, pensei tratar-se de uma armadilha da polícia. Mas a curiosidade de ver minha vítima e descobrir o “por que?” daquele pedido tão estranho foi maior que meus instintos.
Subi, lentamente, as escadas e mergulhei no corredor que levava até o quarto onde deveria estar a criança. Encostei na soleira da porta e, sorrateiramente, olhei para o interior do quarto. Investigando pacientemente a cena.
Era verdade. Sentada na cama, com o olhar perdido na janela, uma pequena garotinha envolta em roupas velhas fitava a paisagem que se descortinava a sua frente. A cama com lençóis sujos e rasgados tinha o aspecto de não ser cuidada há muito tempo. A menina era franzina, tinha a pele macilenta e com um tom acinzentado. Então era isso… Uma doente grave. Isso aliviava minha missão. Afinal, não era um assassinato. Era uma missão humanitária.
Entrei no quarto e, caminhando lentamente, aproximei-me da garotinha sacando minha automática com silenciador. Ela estava tão absorvida pela visão do mundo lá fora que nem percebeu quando encostei o cano da pistola em sua cabeça.
No momento em que ia disparar, a pequenina figura virou-se em minha direção e olhou diretamente em meus olhos.
Ela tinha olhos negros imensos e hipnóticos. Imediatamente, senti-me agarrado e lançado no ar. Era como se estivesse rodopiando num rodamoinho negro e furioso; que me lançava pelo quarto. As paredes se fecharam sobre mim e a escuridão era total. Das profundezas do meu delírio, espectros dos que eu havia assassinado no passado assaltavam-me e me feriam com uma força sobrenatural; o quarto inundou-se com chamas bruxuleantes; que me envolviam e sufocavam. Meus nervos pareciam gritar e querer explodir; saltando da carne. Uma dor profunda e inimaginável feria meu corpo e minha alma. Meus olhos ensangüentados ardiam e pareciam arremessarem-se das órbitas. Um grito de dor estava preso na garganta. No limite da dor, encontrei forças para encostar a arma na cabeça e disparar um tiro. Naquela escuridão sepulcral, pude ver o clarão do disparo e sentir, nitidamente, à bala penetrando e rasgando meu cérebro.
Sentada na cama, a pequenina figura virou-se para a janela e continuou apreciando a paisagem candidamente.
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