O telefone tocou na mesinha da sala. Ainda meio tonto, tinha acabado de pegar no sono depois de mais de trinta e seis horas de serviço, e me amaldiçoava por ter esquecido de desligá-lo. Peguei o pequeno aparelho sem fio e – antes mesmo de dizer “alô” – desabei no sofá.
Do outro lado uma voz exasperada e ansiosa quase gritava: “Inspetor, achamos mais um corpo”. Senti a adrenalina correr nas veias quase imediatamente. O cansaço me abandonou e comecei a procurar minhas roupas enquanto os últimos detalhes eram falados pelo meu colega.
O sol ia alto e o trânsito da cidade naquela hora era um verdadeiro caos. Levei quase uma hora para chegar ao lugar indicado – um bairro pobre da periferia – e mais meia hora para achar o local onde o corpo estava. Como de costume, apesar do corpo ter sido achado ainda à noite, a perícia acabara de chegar. Olhei em volta e, no meio da confusão de gente que se aglomerava para ver o corpo e a movimentação policial, consegui encontrar o policial que me ligara. Era um rapaz ainda novo na polícia, recém formado e cheio de sonhos que a realidade iria moer pouco a pouco. Mesmo o corpo tendo sido encontrado longe da minha área de atuação, a minha delegacia tinha sido incumbida de investigar aqueles crimes pelo próprio governador. Mesmo passados quase quatro anos, desde que encontramos o primeiro corpo, o assassino continuava impune e matava sempre com a mesma regularidade: um crime a cada dois meses.
As pistas eram exíguas e a única coisa em comum entre as vítimas era a drenagem total do sangue. Dois pequenos furos no pescoço e nenhum sangue encontrado nos locais onde os corpos eram encontrados, renderam ao maníaco o apelido “vampiro da periferia”. Estava apenas esperando os peritos “sacramentarem” que o corpo era mesmo de uma vítima do “vampiro”, para iniciar as costumeiras diligências no local. Mesmo com os inúmeros malucos que apareceram imitando esse doido, alguns aspectos dos crimes ficaram guardados apenas com os investigadores diretamente ligados a eles. Assim eliminavam-se os imitadores.
Com o “OK” dos peritos; passei a entrevistar algumas pessoas na multidão que haviam despertado o meu interesse. Como de costume, ninguém havia visto nada e nenhum grito ou movimentação estranha foi relatada. Já estava indo embora e rezando para que, desta vez, a perícia científica desse algum resultado; quando uma mulher chamou minha atenção numa esquina próxima.
Parei o carro em frente a ela e perguntei se ela havia visto algo (já esperando a negativa de costume). Para minha surpresa ela relatou que, na noite anterior, vira um carro do serviço social percorrendo a área. Imediatamente, comuniquei-me pelo celular com o pessoal do estado e da prefeitura e consegui a informação de que não houve qualquer ação oficial naquelas bandas na noite anterior. Ansioso; percebi que aquela era uma pista nova.
Segui para a delegacia e preenchi os requerimentos para a obtenção dos registros dos rastreadores de todos os carros do serviço social estadual e municipal em atividade na semana. Quando os arquivos chegaram, mandei os “garotos” pesquisarem os dados e me informarem quando encontrassem algo. Enquanto isso, ia ao prédio da polícia técnica para apanhar os dados coletados na última cena de crime. Se esperasse pelos “canais normais”, a coisa ia demorar “um tempão”.
Conversando com os peritos, me surpreendi ao saber que algo estranho fora achado na última vítima do nosso “vampiro”. Diferentemente de todas as outras; nesta ele havia deixado resíduos de parafina. Mais precisamente do tipo usado para confeccionar velas. No mais, nenhuma “novidade” no caso. O sangue fora meticulosamente drenado e nenhuma gota restara no corpo.
No meio da semana, um dos “garotos”, que analisavam os dados do rastreamento dos carros do serviço social, me ligou e disse que encontrara algo. Um veículo do órgão municipal havia estava da área, na noite em que o corpo foi deixado lá, em uma ação não autorizada. Pouco antes disso, havia deixado a casa paroquial de uma das igrejas num bairro próximo.
Compareci com, mais dois inspetores, a tal igreja e entrevistei o padre, os vizinhos e algumas pessoas que estavam na igreja naquele momento. Ninguém vira ou ouvira nada de anormal. O padre ainda afirmou que o funcionário do serviço social apenas passara por lá, a pedido dele, para levar um paroquiano até o bairro vizinho (o local do crime) com umas cestas básicas para distribuir para um pessoal.
Mesmo sem ter nada de muito suspeito, alguma coisa me intrigava. Os bairros eram vizinhos; mas, mesmo assim, a história da assistência a famílias carentes me parecia “um pouco demais”. Contudo, sem provas, não podia fazer nada. A única coisa possível era fica vigiando de perto o funcionário público e esperar que ele estivesse envolvido em alguma “maracutaia” para “dar um aperto” nele.
Já fazia quase dois meses que a última vítima do “vampiro da periferia” havia sido encontrada. Em breve, mais uma vítima seria assassinada e a ideia de ficar sentado esperando que isso acontecesse me revoltava. Era estranho que ninguém visse nada e que o assassino conseguisse desovar os corpos sem deixar o mínimo vestígio da sua presença. Estava remoendo esses pensamentos quando o “garoto” me trouxe o relatório da vigilância no cara do serviço social. Um detalhe interessante despertou a minha atenção: ele havia sido transferido de setor, mas ainda continuava visitando a mesma paróquia com o carro oficial. Algo me dizia que ali estava uma boa pista.
Agradeci ao “garoto” e chamei dois colegas para firmarmos uma vigilância direta sobre o sujeito do serviço social. Em três carros, nos revezaríamos seguindo o suspeito até que encontrássemos os motivos desse “interesse especial” naquela igreja ou que o assassino o inocentasse, agindo mais uma vez.
A vigilância já se estendia por duas semanas e absolutamente nada de anormal acontecera. O cara tinha uma vida extremamente chata. Ia de casa para o trabalho e, de lá, para casa sem passar por lugar algum e sem ter vida social.
A noite estava fria e era o meu turno de vigia atrás do suspeito. Aquela noite seria a última porque o assassino já deveria estar agindo e, caso o suspeito não tivesse nenhuma participação no assunto, estaria livre de qualquer suspeita.
Enquanto ele seguia pela rua principal, do centro para a periferia, eu ia remoendo os fatos e chegava à conclusão de que, sem um deslize do assassino, jamais o pegaríamos. Se ele continuasse a agir com a costumeira pontualidade, hoje seria o dia e amanhã estariam me ligando para ir verificar mais um local de “desova”. O frio tomava conta do meu corpo e as dores nas costas e nas pernas já anunciavam que a hora de ir para casa se aproximava. Depois de horas, atrás daquele “Zé Mané”, estava aborrecido comigo mesmo por não conseguir solucionar o caso.
Perdido em meus pensamentos, quase não percebi quando o suspeito desviou do caminho costumeiro e deixou a estrada para entrar num bairro, já da periferia, e começou a dirigir mais devagar. Fiquei atento e dei uma boa distância entre o meu carro e o dele, para não ser descoberto. Logo percebi que ele estava se dirigindo a área das boates e inferninhos conhecidos naquela localidade. Atentamente, estacionei o carro, quando ele parou em frente a um “pé sujo” e começou a conversar com três garotas que estavam sentadas em uma das mesas.
Elas sorriam e ele parecia ser “bom de papo”. Nem uma hora havia se passado e o suspeito já se dirigia ao carro com uma das mulheres. Pelo menos alguém ia “se dar bem" àquela noite – pensei – já me preparando para ir embora quando o carro do suspeito entrasse no motel mais próximo.
Para minha surpresa, o carro passou pela porta do motel e seguiu viajem. Um a um, todos os motéis da região foram deixados para trás e o suspeito dirigia-se rapidamente para o bairro onde a igreja se localizava. Enquanto o seguia, agora totalmente alerta, percebi que algo muito sério estava acontecendo e já ligava para meus colegas solicitando apoio.
O carro parou em frente à entrada da casa paroquial e pude ver perfeitamente, mesmo na escuridão relativa da rua, que o suspeito retirava a mulher que o acompanhara no carro e,praticamente, a carregava para dentro da casa paroquial. Saí do carro e me esgueirei pelas sombras até chegar ao carro do suspeito e pude perceber quando ele entrava na casa e as luzes eram acesas em sequência, conforme ele se deslocava pelo imóvel.
Nervoso e apreensivo calculei que o pessoal ainda ia demorar uns vinte minutos para chegar ao local e resolvi, por minha conta e risco, que tentaria observar o que aconteceria. Pelo estado da mulher, no mínimo, um flagrante de estupro contra o suspeito e o padre já se anunciava. Entrei no jardim da casa paroquial, pulando o muro, e percebi que algumas luzes haviam sido acesas na igrejinha, que ficava dentro do mesmo terreno e ao lado da casa paroquial. Subi num pequeno nicho destinado a abrigar a bomba d’água do poço e alcancei a janela da igreja que me permitia ver diretamente no interior do prédio.
O que vi gelou meu sangue imediatamente: Sobre o altar, o padre estendia um enorme pano branco e o funcionário do serviço social suspendia, pelo sistema de roldanas que era usado para sustentar o enorme crucifixo, o corpo mole e completamente nu da mulher. Após estender o pano, o padre posicionou um recipiente dourado sob a cabeça da mulher; apanhou uma pequena faca dourada com a ponta extremamente fina e, enquanto seu macabro assistente entoava uma ladainha incompreensível para mim, preparava-se para perfurar o pescoço da garota.
Estava ali o “vampiro da periferia”. Era o padre local. Num átimo de segundo pensei em invadir o prédio, mas concluí que não haveria tempo, o padre ia furar a garota e não haveria forma de socorrê-la a tempo naquelas condições. Sem pensar, saquei minha arma e atirei pela vidraça. O estrondo do vidro quebrado, o clarão do disparo e o grito do auxiliar do vampiro provocaram um alvoroço na rua. Os cachorros começaram a latir, as pessoas apareciam de toda parte, depois de constatarem que não havia mais perigo, e eu continuava parado sobre o nicho da bomba; mirando na cabeça do cara do serviço social. Ele me encarava espantado e com o rosto coberto pelos miolos e pelo sangue do padre. A garota ainda estava pendurada, mas segura. E, enquanto em gritava para que ele deitasse no chão, já podia ouvir os carros da polícia que se aproximavam.
Afinal de contas, tinha sido uma noite e tanto.
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