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ALMAS GÊMEAS.

11/11/2010
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Contos Ancestrais - Almas Gêmeas

Chegou cansado e mentalmente exaurido. O velório e as cerimônias fúnebres haviam varado a madrugada e acompanhara cada passo, desde a liberação do corpo até o sepultamento, sem descansar um minuto. Agora; só queria dormir e esquecer.

Aqueles foram os dois mais terríveis anos de sua vida. E agora, mesmo tendo perdido a pessoa que mais amara na vida, só podia sentir alívio e uma pontada vergonhosa de alegria. Sim; sentia-se envergonhado de estar feliz pela morte da única mulher que amara em toda a sua miserável existência. Sua alma gêmea – como ela sempre dizia – e ele concordava sem pestanejar.

O casamento foi feliz. Era amado e amava. O sexo era maravilhoso e, mesmo com o passar dos anos, ainda continuava tórrido e cheio de descobertas provocantes. Seus dois filhos, já crescidos, formados e com suas próprias famílias; eram pessoas de sucesso e tinham vidas igualmente felizes e confortáveis.

Mas, naqueles últimos dois anos… a sua vida se transformou num verdadeiro inferno na terra.

Ana, sua amada esposa, fora diagnosticada com um tumor cerebral inoperável que provocava fortes mudanças de personalidade e de humor. Conforme a doença foi se agravando, Ana alternava momentos de lucidez e amor com a mais profunda e obscura maldade e loucura.

Desenvolveu uma paranóia inexplicável que ia e vinha de forma quase instantânea e a fazia enxergar mil tramas contra sua vida. Em várias oportunidades, para se defender dessas tramas imaginárias, tentara matá-lo enquanto ele dormia ou envenenara sua comida. Mesmo que ele fingisse não acreditar, depois da segunda internação e de três paradas cardíacas, aprendera que não poderia mais confiar no que ela lhe servia nem quando aparentava estar de bom humor.

Ela sempre sorria e dizia que o amava. Eles se beijavam. Passavam horas abraçados e deitados juntinhos. Ele adorava ouvi-la dizer que eram “almas gêmeas” e que haviam sido feitos um para o outro.

Esses cada vez mais raros momentos de amor e paz eram substituídos rapidamente por rompantes de puro ódio, palavrões que ele nem imaginava serem conhecidos por ela. Tapas, chutes, bofetões, mordidas… ele suportava tudo. Apenas a abraçava com toda força que possuía e chorava, esperando que o ataque passasse logo. Muitas vezes, os ataques duravam tempo demais e ele se feria até com certa gravidade. Mas, jamais aceitara interná-la em uma instituição ou mesmo deixá-la em definitivo num hospital. Permaneceria ao seu lado até que um dos dois morresse.

E isso não demorou muito…

Na tarde anterior, enquanto se preparavam para receber a visita dos filhos; ele preparava o almoço quando ouviu Ana chamando-o no quintal. Ela estivera bem àquela manhã toda e ele pensava que o dia talvez fosse ameno até que ela caísse no sono finalmente.

Ao chegar ao quintal, percebeu que seus sonhos de paz e tranqüilidade se desintegraram instantaneamente. Ana Estava ensopada e suas roupas pingavam. Horrorizado, percebeu que ela segurava uma garrafa de álcool e um acendedor. Sorrindo, o encarava com um olhar vazio e distante.

De onde estava, sabia que jamais a alcançaria antes dela se incendiar. Começou a conversar suplicando para que largasse a garrafa. Evocou o amor que havia entre eles e como seria insuportável a vida sem ela.

Foi justamente aí que os olhos distantes e vazios dela pareceram se iluminar. Sorrindo com uma estranha felicidade em seu rosto, ela sussurrou que o amava e que eles eram almas gêmeas… e incendiou-se.

Imediatamente, seu corpo foi tomado por uma bola de fogo e pela fumaça provocada pelas queima das roupas e da pele. Rapidamente, ele apanhou alguns panos que estavam no varal e atirou-se sobre ela pra derrubá-la e abafar as chamas.

Os gritos e toda a confusão chamaram a atenção dos vizinhos que chamaram a polícia, os bombeiros e uma ambulância. Mas, já era tarde… muito queimada, apesar de ter sido levada ainda com vida para o hospital, ela morreu naquela mesma noite.

Agora estava novamente onde tudo ocorrera. Ainda não tivera coragem de ir ao quintal e nem sabia se voltaria a ir lá fora novamente. Suas mãos, braços e peito estavam queimados e ainda ardiam muito. Tudo o que queria era dormir e esquecer.

Foi para o quarto e deitou-se. O sono veio rápido; mais rápido até do que esperava…

De repente, acordou num sobressalto. Um clarão estranho tomava conta do quarto e um forte cheiro de fumaça enchia o ar. Saltou da cama e correu até a sala, o que viu gelou seu sangue…

Um vulto em chamas jazia deitado no sofá sem queimá-lo. Mesmo sem conseguir vislumbrar o rosto, tal o volume de chamas envolvendo o vulto, ele imediatamente sabia quem era aquela figura terrível.

Parecendo ler sua mente, o vulto levantou-se e tocou o sofá mais uma vez. Agora, as chamas se espalharam pelo móvel, subiram pelas cortinas e envolveram todo o ambiente com sua fúria.

Imediatamente tentou apagar as chamas, mas percebeu que era impossível. Olhou em volta e viu que as chamas já bloqueavam a porta e que sua única saída era jogar-se pela janela do quarto. Correu até lá com a figura em chamas no seu encalço. Olhando para trás, percebia que os lugares onde ela tocava se incendiavam e espalhavam o incêndio, que agora tomava conta de todo imóvel. Tentou abrir a janela do quarto sem sucesso. Alguma coisa mantinha a trava acionada e ele não conseguia abri-la de forma alguma. Pegou o abajur de bronze sobre o criado mudo e lançou-o na vidraça tentando abrir caminho. Espantou-se quando o pesado objeto simplesmente ricocheteou no vidro e caiu pesadamente no chão. Aquilo era impossível.

Apanhou o abajur e segurando firmemente; golpeou o vidro com toda força que tinha… uma… duas… três… quatro vezes e nada. Desesperado, começou a gritar e socar a janela. Sentia o calor aumentando e a fumaça tomando o resto do ar respirável do ambiente. A situação era desesperadora.

Sufocado, tomado pelo pânico e com a pele queimando dolorosamente; olhou uma última vez para a janela antes de ser envolvido totalmente pelas chamas e pela dor lancinante. Segundos antes de desmaiar de dor; ouviu uma voz familiar sussurrando em sua mente… “nós somos almas gêmeas”…

Pela manhã, sua filha bateu a porta da pequena casa e ninguém atendeu. Preocupada, ligou para o irmão e chamou um vizinho amigo para arrombar a porta. Quando chegaram ao quarto, encontraram o corpo deitado calmamente sobre a cama… estava morto.

O vizinho, com os olhos cheios de lágrimas, não resistiu e comentou: “Eu sabia. Sempre que um dos membros do casal que se ama tanto assim morre, o outro não vive por muito tempo”. A filha, abraçada ao corpo e entre soluços, concordou e ainda acrescentou: “É verdade; tenho certeza de que minha mãe veio buscá-lo e de que ele morreu em paz”…

 

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3 Responses to ALMAS GÊMEAS.

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by arthurius_maxim, arthurius_maxim. arthurius_maxim said: Deu no Blog ALMAS GÊMEAS. http://goo.gl/fb/6kHj1 [...]

  2. Larissa Bohnenberger on 13/11/2010 at 15:54

    Nossa! Que pânico! Morrer nem sempre é pacífico e indolor!

    Bjs!
    Larissa Bohnenberger recently posted..O Retorno de Loirão

  3. Iza on 13/11/2010 at 22:22

    No meio do conto, não imaginava que ela viria buscá-lo. Viveríam os dois no fogo do inferno, eternamente.
    Iza recently posted..O surto dela

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