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NÚMEROS DA SORTE.

20/07/2011
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Contos Ancestrais - Números da Sorte

Acordou bem cedo. Aquele seria um dia importante no trabalho e ela não podia se atrasar. Enquanto tomava seu café da manhã, ainda relembrava o estranho sonho que tivera àquela noite: sua mãe, falecida há anos, conversava com ela e lhe entregavam pequeno papel onde estavam escritos seis números: 06, 15, 25, 32, 33, 44 e uma outra coisa que ela nunca conseguia ler.

No sonho, sua mãe lhe dizia para guardar com cuidados aquele papel e que nele residia uma grande mensagem para ela. Aparentemente atormentada, sua mãe afirmava que não podia dizer exatamente o que era, mas aqueles números e a mensagem ditariam o seu futuro na terra.

Dirigindo pelas ruas engarrafadas e cada vez mais tomadas por carros e pessoas, não podia deixar de pensar que aqueles números só poderiam significar um palpite da Mega Sena enviado diretamente por sua mãe, uma fervorosa jogadora, para libertá-la da vida maçante, do trabalho insípido e, principalmente daquele marasmo que tomou conta da sua vida.

A manhã deu lugar à tarde e, após o almoço, resolveu “pagar pra ver” e fazer um aposta na casa lotérica próximo ao escritório. Desde que a mãe morrera, nunca mais havia entrado numa casa de jogos e se afastara de tudo relacionado àquela faceta da personalidade materna.

Fez o jogo e prosseguiu apressada para o escritório. A noite chegou e, com ela, um novo sonho. Sua mãe voltava a lhe entregar o papel com os mesmos números e lhe dizia a mesma coisa de sempre: “naqueles números estão encerrados os segredos do seu futuro na Terra”.

Chegou o dia do sorteio. Com o volante na mão, esperava ansiosa a transmissão ao vivo dos números que representariam a sua liberdade e uma vida completamente nova. O locutor iniciou o sorteio e foi logo dizendo os números, conforme a máquina os cuspia apressadamente: “Primeira dezena: 25… segunda dezena: 15… terceira dezena: 44…"

Uma a uma, todas as dezenas dadas por sua mãe no sonho foram sendo sorteadas. Incrédula, agarrava o volante do jogo e olhava espantada para os números que pareciam dançar em suas mãos. Quase desmaiando, sentiu toda tensão e angústia se dissiparem num grito forte e prolongado que assustou a vizinhança e fez até os cachorros latirem na rua.

Começou a pular e a gritar; correndo pelo pequeno apartamento como se estivesse preste a vencer uma maratona. O coração explodia no peito, a respiração era ofegante e a alegria enorme. Pegou o telefone e foi logo ligando para os parentes mais chegados e alguns amigos de fé. Falou das viagens que faria, da ajuda que daria a todos que sempre a ajudaram e de todas as coisas que compraria com o dinheiro presenteado por sua mãe. Isso mesmo pensou, tudo foi um presente de minha mãe. Se não fosse o sonho, eu jamais teria ganhado nada.

Uma pequena lágrima de tristeza banhou aquela alegria imensa quando ela se lembrou dos anos finais de sua mãe. A luta contra um câncer voraz e quase intratável; as dores lancinantes que nenhum remédio diminuía; o sofrimento e a derrocada final daquela mulher lutadora. Lembrou das vezes em que teve de limpar as fezes, o vômito, o sangue e toda a sorte de imundícies que brotavam daquele corpo corroído pela doença e de toda juventude que isso lhe sugara. Da raiva que sentia por não poder sair para namorar ou passear com os amigos por ser a única a cuidar da mãe doente.

Pensando nisso, resolveu que iria visitar o túmulo de sua mãe e fazer uma oração de agradecimento. Tomou um banho, colocou sua melhor roupa e saiu para apanhar o ônibus até o cemitério. Ao chegar, a tarde ia morrendo e o crepúsculo já trazia a esperança de uma noite quente e movimentada para a cidade.

Entrou no cemitério; caminhou pelas alamedas e parou diante da sepultura de cimento caiado, com um pequenino retrato de sua mãe incrustado numa plaquinha de mármore quadrada. Ajoelhou-se e começou a rezar agradecendo pelo enorme presente recebido e prometendo ajudar muitos daqueles que ajudaram dividindo os momentos difíceis vividos por ambas.

De repente; sentiu que alguém a observava e se virou para olhar quem era. De pé, um pouco atrás dela; uma velha muito magra, com a pele macilenta e cheia de manchas a olhava de forma fixa e penetrante.

Foi em direção da velha senhora e, com um sorriso, a cumprimentou perguntando se poderia ajudar em algo. A velha, mostrando impaciência e sem dizer uma única palavra, esticou o braço e mostrou um pedaço de papel com algo escrito.

Diante de sua hesitação, a velha sacudiu levemente o papel e disse rapidamente: “Pegue e leia”.

Escritos com uma letra inconfundível; estavam os números: 06, 15, 25, 32, 33, 44. Logo abaixo, aquilo que ela nunca conseguiu ler no sonho: “Doe tudo que eu te perdoo”. Imediatamente, a jovem caiu por terra chorando e soluçando. Havia reconhecido a velha de imediato, mas recusara-se a acreditar: era sua mãe. Exatamente como estava pouco antes de morrer e, depois, no sonho. Enquanto soluçava e tentava argumentar, a velha figura continuava olhando fixamente para ela sem parecer se abalar.

Em dado momento, a velha vaticinou: ”sua crueldade, os xingamentos, os maus tratos e todo o sofrimento que você me fez passar enquanto eu estava doente não podem ficar impunes. Seu espírito está condenado; mas eu vim para provar que você ainda merece uma última chance de mudar. Doe tudo o que ganhou e terá o meu perdão e o de Deus também".

Dizendo isso, a velha desapareceu na escuridão da noite que já tomava conta do mundo; enquanto a jovem mulher permaneceu soluçante no chão enquanto pensava na decisão a ser tomada naquele incrível dilema.

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3 Responses to NÚMEROS DA SORTE.

  1. Ver! | Blog | NÚMEROS DA SORTE. on 20/07/2011 at 15:21

    [...] * Publicado no Contos Ancestrais [...]

  2. Ver! | Blog | NÚMEROS DA SORTE. on 20/07/2011 at 15:21

    [...] * Publicado no Contos Ancestrais [...]

  3. [...] conto de hoje, “Números da Sorte”, é sobre uma mulher que recebe, através de um sonho, números da sorte entregues pela mãe já [...]

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