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DINHEIRO A VONTADE.

10/08/2011
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contos ancestrais - dinheiro a vontade

 

Sempre fui um “duro”. Apesar de trabalhar muito; sempre ganhei pouco. Mas, como minha mãe sempre dizia: “Pouco com Deus é muito” e eu sempre dava um jeitinho de chegar ao fim do mês relativamente inteiro.

Também sempre fui conhecido como um “boa praça”. Tinha muitos amigos e, sempre que podia, ajuda pessoas próximas a mim ou mesmo desconhecidas que passavam por momentos de grande dificuldade. A solidariedade e a empatia corriam no meu sangue insufladas pela criação que havia recebido de meus pais.

Exatamente essa empatia foi a responsável por um dos acontecimentos mais inacreditáveis da minha vida e que, agora, vou contar para você:

Começou numa tarde de agosto do ano passado, quando um grande amigo meu me telefonou avisando que seu irmão morrera em um acidente de carro e que o enterro seria na manhã seguinte. Sempre fui considerado “da família” pelos pais dele e me senti obrigado a acompanhar o velório e a ir com a família para o cemitério para ficar ao lado de todos até o sepultamento.

Mas, como sempre, eu estava completamente sem dinheiro e pedi que ele viesse me buscar em casa. Combinamos um horário e nos despedimos. Na hora combinada eu já o aguardava na portaria e nem foi preciso que ele estacionasse.

Chegamos ao cemitério no cair da noite e, enquanto meu amigo estacionava o carro, fiquei esperando perto da entrada principal do cemitério para irmos juntos até à capela. Em dado momento, uma senhora de aparência humilde chegou perto de mim e pediu algum dinheiro. Dizia que precisava enterrar um parente e não tinha dinheiro.

Fiquei com pena dela, mas como sempre, eu estava completamente sem dinheiro. Falei que não poderia ajudá-la porque estava “desprevenido” no momento. Ela riu ironicamente e disse: “O moço chegou num carrão e tem coragem de dizer que não tem dinheiro?”

Surpreso com a audácia e, ao mesmo tempo, aborrecido por ter sido afrontado tentei me desculpar: “Sinto muito, acredite, se eu tivesse dinheiro ajudaria à senhora e muita gente”. A velha me olhou; riu com a boca desdentada e falou que minha oportunidade ia chegar. Meu amigo chegou e fomos cainhando para o interior do cemitério, enquanto uma chuva fina começava a cair.

A noite passou e a madrugada deu lugar a uma manhã nublada e fria. A capela, antes quase vazia, agora estava repleta de parente e amigos do falecido. Colegas da faculdade e um monte de gente que eu nunca vira.

Chegou a hora do enterro e os escolhidos para segurar o caixão se aproximaram; apanharam o esquife e seguiram em cortejo pela alameda principal do cemitério. Atrás deles, uma fila de pessoas seguia num silêncio respeitoso, quebrado apenas pelos soluços e pelo choro de alguns. Eu, ao lado do meu amigo, seguia em silêncio pensando na fragilidade da vida e completamente absorto em meus pensamentos quando, lá na frente perto do ponto em que o cortejo entraria na rua onde se localizava a sepultura da família, vi um rosto conhecido: era a velha que me pedira dinheiro.

Como se percebesse a minha presença, ela se virou e olhou diretamente para mim. A mesma boca desdentada se abriu num sorriso amplo e seu braço se ergueu apontando para algo próximo ao local onde eu estava.

Olhei na direção que ela apontava e vi, caída numa poça d’água, uma carteira de homem. As pessoas passavam por ela e simplesmente pareciam não vê-la. Me aproximei e apanhei a carteira, que estava pesada e grossa. Era uma carteira de dinheiro comum. De couro; um pouco surrada e com pequenos apliques de metal dourado nas pontas.

Ansioso; abri a carteira…

Lá, junto com um monte de notas, havia uma identidade. Saquei o documento. Certamente devolveria ao dono todo aquele dinheiro e ainda receberia alguma recompensa por isso. Uma graninha “do nada” caía bem para amenizar a minha dureza crônica. Mas, quando li o nome da identidade, meu sangue gelou e senti meu coração parar de bater: o documento era meu.

Tremendo; olhei na direção da velha e ela ainda sorria e balançava a cabeça afirmativamente para mim. Enquanto o enterro seguia, fui em direção a ela e perguntei o significado daquilo. Com um olhar penetrante, ela respondeu: “Você disse que se tivesse dinheiro ajudaria aos outros. Agora você tem”. Sem pensar peguei todas as notas e coloquei nas mãos dela. Saí dali com o coração aos pulos e fui direto para o lado do meu amigo.

contos ancestrais - dinheiro a vontade

Saímos do cemitério e, ao chegar casa, fui logo tomar um banho para ir ao trabalho. O estranho caso da carteira e a velha, mais estranha ainda, martelavam na minha cabeça sem parar e causavam uma enormidade de suposições e pensamentos loucos. Comi qualquer coisa e parti para o trabalho.

Na mesa ao lado, meu colega se lamentava dizendo que seu cachorro estava muito doente, mas o veterinário cobrara uma fortuna para tratá-lo. A doença era grave e, mesmo percorrendo vários outros especialistas, o tratamento era mesmo muito caro. Ia acabar mandando sacrificar o animal apenas porque não tinha como pagar o tratamento. Seus filhos estavam desconsolados diante da perda do bichinho que os acompanhava desde pequenos.

Ouvindo a conversa pensei: “Se eu tivesse dinheiro, ajudava…”

Nesse mesmo momento, a lembrança da velha e da carteira saltou a minha mente. Levei a mão ao bolso e tirei a carteira. Para minha surpresa, ela estava novamente cheia de notas. Perguntei ao meu colega quanto o veterinário cobrara e o valor era exatamente o mesmo que eu tinha na carteira. Como fiz com a velha, apanhei todo o dinheiro e dei ao meu colega dizendo que me pagasse como e quando pudesse.

O expediente passou arrastado entre o murmurinho normal o escritório e os olhares curiosos dos outros colegas que me perguntavam se havia ganhado na loteria ou recebido alguma herança. Chateado com as piadinhas e com o assédio; resolvi sair mais cedo e fui para casa.

No caminho passei por uma loja de eletrônicos e vi, na vitrine, uma magnífica TV de tela grande que eu namorava fazia um bom tempo. Peguei a carteira e… lá estavam… várias notas novinhas totalizando o valor exato da televisão.

Não pensei duas vezes. Entrei e comprei o aparelho com um sorriso de orelha a orelha. Fui para casa com o coração leve e certo de que aquela carteira seria uma benção que mudaria a minha vida para um novo patamar.

Alguns dias depois, a loja entregou a minha nova TV como combinado. O instalador veio no mesmo dia e, enquanto ele fazia o serviço, o telefone tocou. Atendi e uma voz chorosa do outro lado dizia: “filho… filho… seu pai morreu… ele começou a passar mal de manhã e, quando corremos para o hospital, já era tarde demais…”

Na mesma hora, a imagem a velha desdentada do cemitério surgiu na minha lembrança, juntamente com o som da sua voz esganiçada dizendo: “Você disse que se tivesse dinheiro ajudaria aos outros. Agora você tem”.

Foi aí que eu percebi. Ao usar o dinheiro da carteira em meu próprio benefício, a força por trás dela cobrou de mim um alto preço pelo meu deslize.

Assim, essa é a minha história. Tenho o dinheiro que quiser; quando quiser. Mas não posso usar um único centavo em meu benefício. Até hoje não sei de onde surgiu ou o que era aquela velha. Só sinto, quando mergulho na depressão da minha pobreza, um profundo arrependimento de ter recebido uma benção que, ao mesmo tempo, é uma maldição.

Mesmo que a morte do meu pai tenha sido mera coincidência, nunca tive coragem de por a prova os poderes da carteira. Jamais me perdoaria se mais alguém perdesse a vida por um momento de fraqueza meu. Quanto a minha TV novinha… bem… eu acabei doando para a caridade sem nunca tê-la sequer ligado.

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