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A CHAVE DO TEMPO.

11/01/2012
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Blog Contos Ancestrais - A Chave do Tempo

 

A empresa, conhecida por empregar os maiores cérebros do país, gozava de localização privilegiada e de uma sede maravilhosamente construída em um complexo industrial especialmente destinado a empresas de alta tecnologia. Por trás das enormes janelas de vidro e das grandiosas portas duplas de bronze e vidro, que separavam o lobby de granito polido da rua por onde caminhavam os reles mortais, a decoração suntuosa escondia laboratórios equipados com o que havia de mais moderno em tecnologia e homens tão dedicados aos seus projetos que pouco ou nunca deixavam as dependências da empresa.

Em um desses laboratórios, no quinto subsolo do prédio, o dia prosseguia dentro do planejado. No pequeno cômodo, três homens trabalhavam desenvolvendo um protótipo de uso militar, altamente secreto, capaz de destruir equipamentos, redes de comunicação e de energia do inimigo através de pulsos eletromagnéticos.

O chefe do laboratório, um físico Prêmio Nobel e com anos de experiência em projetos daquele tipo, operava os controles do protótipo. Ao seu lado, a poucos metros à direita, um jovem assistente monitorava os resultados através dos equipamentos que cuspiam centenas de dados e gráficos. Do outro lado da sala, um terceiro cientista controlava os níveis de energia consumidos pelo protótipo, possíveis descargas de radiação emitidas ou qualquer outro problema com o experimento.

Perto do meio dia, os três homens se preparavam para iniciar mais uma bateria de testes. O ambiente descontraído era fruto de anos de convivência e da confiança mútua na competência de todos. Eram amigos de longa data e suas famílias sempre se encontravam nos poucos momentos de relaxamento fora do laboratório.

Aquele seria o último experimento do dia. Depois, iriam almoçar e consumir o resto da tarde (e possivelmente boa parte da noite) esmiuçando os relatórios e dados obtidos com os testes do dia. O prazo para conclusão do projeto estava chegando ao fim e eles precisavam terminar tudo o mais rápido possível.

Acionaram o protótipo exatamente às 11:55hs. Um zumbido leve e monótono tomou conta da sala e uma leve luminosidade pairava sobre o equipamento. No painel de instrumentos, os ponteiros e mostradores pulavam, giravam e se mexiam – cuspindo uma montanha de dados que o assistente acompanhava com atenção total – tudo estava indo como planejado.

De repente, o jovem assistente que controlava os dados ergue a cabeça e olha intrigado para o outro lado da sala. Algo estranho acontecia na parede diretamente atrás do seu colega. Instintivamente, ele sinalizou para que o experimento fosse suspenso. O protótipo foi desligado e todos se voltaram para a parede. Os azulejos que a revestiam pareciam velhos e gastos, embora todos soubessem que o laboratório passara por uma reforma completa há poucos meses.

Resolveram reiniciar o experimento e atribuíram a tensão do dia, a uma distração geral ou mesmo a uma possível má qualidade do material usado na reforma a impressão do colega. O protótipo foi acionado novamente e quase instantaneamente os olhos do jovem assistente se fixaram na parede… Enquanto seus colegas prestavam total atenção ao desempenho do protótipo, ele percebeu claramente que os azulejos voltaram ao brilho inicial e pareciam recém colocados.

Num instante tudo sumiu e, ao mesmo tempo, cessaram o zumbido e a luminosidade na sala. O protótipo havia sido desligado.

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Sem que os colegas dessem conta, o jovem assistente se levantou e andou até a parede do outro lado da sala, a examinando cuidadosamente. Os rejuntes do revestimento que forrava a parede, próximos ao chão, estavam cobertos por uma camada de limo e o esmalte dos azulejos aparentava estar gasto como se fossem muito velhos. Como era possível?

E pior, enquanto ele tocava os azulejos, eles simplesmente se desprendiam da parede e viravam pó em poucos segundos. Era como se ficassem cada vez mais velhos rapidamente. Além disso, uma mancha escura tomava corpo nos rejuntes e crescia do chão para o centro da superfície de forma acelerada. Um exame mais próximo constatou que se tratava de mofo.

Sem compreender o que ocorria, chamou a atenção dos colegas que correram para verificar a parede. O cimento e todo o revestimento se esfarelavam e caíam num processo de deterioração tão acelerada que parecia sobrenatural. O mofo também crescia rápido demais e de forma antinatural.

Olharam-se espantados e resolveram ligar o protótipo mais uma vez, monitorando possíveis descargas radioativas direcionadas para aquela parede. Imediatamente ao acionarem o equipamento voltaram para observar a parede. Tudo voltara ao normal… Nada de mofo… Nada de azulejos rachados, gastos ou mesmo pulverizados. A parede reluzia como nova. Não havia sinais de radiação de nenhum tipo e eles não conseguiam entender o que acontecia.

Depois de algumas horas, desligaram o protótipo e o que viram mudou tudo…

A parede parecia fazer parte de uma velha construção e caía aos pedaços. Era possível ver as ferragens das colunas e vigas e não havia mais sinal algum do revestimento. Como se isso não bastasse todo o laboratório estava mudado. Por toda parte, se viam apenas sinais de corrosão e degeneração. Tudo parecia ser muito velho e gasto. Do piso ao teto, absolutamente tudo estava corroído, destruído ou se desfazendo.

Um grito de horror cortou a sala e todos olharam para o chefe do laboratório. Ele estava horrivelmente velho. Sua aparência era de um homem de mais de cem anos. Os olhos esbugalhados e a boca escancara, sem nenhum dente, exprimiam terror e surpresa quase indescritíveis. Antes que os outros pudessem fazer ou dizer algo, o corpo do velho cientista foi ao solo e desfez-se em pó. O pânico tomou conta do pequeno laboratório quando eles perceberam que eles mesmos envelheciam se forma acelerada.

O jovem assistente, usando todas as forças que lhe estavam, acionou o protótipo e juntamente com o leve zumbido e a luz bruxuleante emitidos pelo aparelho, tudo voltou ao normal na pequena sala. Mas, o chefe estava morto.

Perceberam, então, que o aparelho havia provocado algum tipo de distúrbio temporal e contaminara a realidade. Sua desativação, fazia o tempo acelerar rapidamente de forma descontrolada. Restava agora comunicar a direção da empresa, reunir os dados e buscar uma forma de resolver o problema.

Estavam tão absortos no enigma que nem perceberam a confusão e a correria que se passava fora do laboratório. Um segurança irrompeu pela porta e o barulho dos alarmes que soavam nos corredores invadiu a sala. O segurança, ao berros, ordenava que todos deviam abandonar o prédio imediatamente. Algo inexplicável estava acontecendo e várias pessoas relataram mortes estranhas nas diversas dependências da empresa. Acreditavam que algum agente químico ou biológico havia escapo de algum laboratório nos andares inferiores e ordenaram evacuação total.

Os dois cientistas se olharam e sabiam muito bem o que estava acontecendo. Contudo, ninguém podia deixar o prédio. Quem deixasse o campo de ação do protótipo teria uma morte instantânea e horrível. Sem pensar duas vezes, o assistente pressionou o botão vermelho que ficava sob uma caixa plástica no painel de instrumentos e um alarme, ainda mais alto do que o anterior ecoou por todos os corredores do prédio. O edifício fora lacrado com todos em seu interior.

Deixaram o laboratório e convocaram uma reunião de emergência com a administração. Revelaram o acontecido e as possíveis consequências de deixar o prédio. Solicitaram que as autoridades militares fossem comunicadas e que toda a área do complexo, ao redor da empresa, fosse fechada. Um comunicado aos demais funcionários foi expedido e todos os cientistas do prédio se debruçaram sob o problema em busca de uma solução que permitisse salvar a todos.

Meses de trabalho intenso e exaustivo de centenas de cientistas das mais variadas áreas haviam se passado sem nenhuma perspectiva de resolver o problema. A cada dia, mais e mais funcionários do prédio tentavam fugir das instalações em busca de suas famílias e de suas vidas – no agora mundo exterior – mas, o resultado dessas fugas era sempre o mesmo: qualquer ruptura em janelas, paredes ou mesmo a abertura de portas para o exterior causavam uma enorme rajada de vento e o escapista era reduzido a pó quase imediatamente. Por pouco todo o prédio não era destruído até que as portas de contenção isolassem o cômodo violado. Tudo o que sobrava eram roupas esfarrapadas, metais corroídos e uma sala que parecia ter sido construída há centenas de anos.

Exaustos e derrotados pelas limitações claras impostas pelas instalações, os cientistas chegaram à conclusão de que seria impossível chegar a um termo adequado para a situação. A única chance de impedir que o desastre se espalhasse para o mundo exterior seria enviar os dados e relatórios das pesquisas para os laboratórios militares (mais bem equipados). Mas, como fazer isso? Qualquer tentativa de enviar documentos para o fora do prédio resultaria em destruição imediata dos objetos.

Debruçando-se sobre suas pesquisas a única conclusão a que todos chegaram fez descer sobre a equipe uma sensação enorme de desespero: A única forma era o protótipo acompanhar os dados. Desta forma, a “bolha” de proteção seguiria os preciosos arquivos e elementos das pesquisas realizadas até agora e garantiria sua integridade e utilização pelos militares. Todos sabiam, é claro, que a retirada do protótipo do prédio condenaria todos ali a uma morte imediata.

Se reuniram e concentraram toda a sua sabedoria no encontro de uma alternativa ao suicídio coletivo. Mas, já sabiam que ela não existia. Decidiram, portanto, que um deles vestiria o novo traje pressurizado – recém desenvolvido para os cosmonautas – e, através de uma adaptação na mochila do tarje conduziria o protótipo, sob escolta, até a base militar mais próxima.

O escolhido para a tarefa foi o jovem assistente.

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Sendo o mais jovem de todos eles teria mais tempo de vida, caso algo desse errado, e como havia participado de todo o desenvolvimento do protótipo, era o único capacitado para dar mais velocidade a interpretação dos dados e a possibilidade de encontrar uma possível solução antes que o problema se espalhasse pelo planeta. A decisão era unânime: nada mais era possível.

Os preparativos foram feitos, todos os funcionários puderam falar com seus familiares – mas foi-lhes proibido mencionar o que aconteceria – depois, se reuniram no saguão do prédio – junto as enormes portas de bronze e vidro (agora lacradas) que davam para a rua tomada por viaturas militares e vigiada de todos os ângulos.

O jovem assistente desceu as escadas que ligavam o mezanino ao saguão, acompanhado por dois cientistas que o ajudavam a carregar o protótipo e as duas maletas elaboradas com os novos compostos plásticos recém desenvolvidos para viagens espaciais e que deveriam resistir aos efeitos da transição de tempo quando as portas fossem abertas.

Trocaram olhares por um instante e um novo alarme soou para avisar sobre a liberação dos lacres na enorme porta de bronze do saguão. Na rua, os militares recuaram e se abrigaram a uma distância que parecia segura (uma vez que ninguém sabia o que poderia acontecer). O jovem assistente podia ouvir atrás de si, enquanto caminhava lentamente para as portas, o choro e os soluços dos que ficaram. Ninguém via seu rosto, mas as lágrimas desciam por sua face embaçando o visor do traje, ele tentava caminhar o mais rápido possível sem olhar para trás. Tudo o que desejava era acabar logo com aquilo.

Chegou diante das portas e os dois seguranças que as ladeavam as abriram… No mesmo instante uma enorme rajada de vento invadiu o saguão do prédio e os seguranças foram reduzidos a pó quase de imediato. O choro e os soluços silenciaram. O jovem assistente reiniciou sua penosa caminhada, agora totalmente sozinho, para fora do prédio. Enquanto passava pelas enormes portas – que perderam o brilho de outrora e apresentavam-se esverdeadas e repletas de placas corroídas até a dissolução – lançou um olhar para o saguão… Estava vazio. As lindas paredes de mármore o chão de granito polido, agora eram uma mera lembrança. Tudo estava em frangalhos e destruído. O dispositivo ainda funcionava protegendo-o dos efeitos danosos da aceleração temporal.

Já do lado de fora, foi recebido pelos militares com extrema cautela. Ninguém ousara se aproximar dele e fora orientado pelo rádio a colocar os dados em um veículo blindado, especialmente criado para combate em ambientes radioativos, estacionado diante do prédio. Ele mesmo deveria guiá-lo até a base – usando o mapa e o GPS no interior do veículo – e ao chegar lá receberia novas orientações.

O jovem assistente deu a partida no estranho veículo e acelerou… Tudo o que pode ver, após alguns minutos, pelas câmeras do blindado foi uma enorme explosão que deve ter arrasado todo o complexo onde o prédio da empresa estava localizado. Eles nem se preocuparam em contar os mortos, já estavam encobrindo tudo. Enquanto dirigia; pensava como os militares já tinham tudo planejado e se perguntou: O que fariam com ele?

Mas, agora, apenas uma coisa era importante: solucionar aquele mistério e impedir a destruição do planeta. Só isso salvaria os que amava e toda a raça humana do aniquilamento.

Uma certeza, no entanto, lhe martelava a cabeça… Ele nunca mais seria visto.

 

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2 Responses to A CHAVE DO TEMPO.

  1. Ver! | Blog | A CHAVE DO TEMPO. on 11/01/2012 at 16:07

    [...] Publicado no Contos Ancestrais Compartilhe [...]

  2. Alex on 13/01/2012 at 22:06

    Esse conto merece uma continuação.

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